Não é de hoje que multidões são um enorme desafio para os profissionais da segurança pública. O festival de música techno “Love Parade”, de 2010, em Duisburg, que causou muitas mortes devido a um pânico em massa, os atentados terroristas de 2004 em Madri e a breve realização da Copa do Mundo motivaram um grupo de pesquisadores sob a chefia de Manoel Mendonça, da Universidade Federal da Bahia, a reforçar o equipamento dos profissionais da segurança com tecnologias móveis modernas e a incluir as massas de espectadores no gerenciamento de catástrofes. O projeto se chama “Rescuer”, no qual participam também o Instituto Fraunhofer de Engenharia Experimental de Software (IESE), o Centro ALEMÃO de Inteligência Artificial (DFKI), as universidades de Madri e de São Paulo, além de empresas. O projeto é financiado pela União Europeia e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação do Brasil. “Rescuer” é baseado na ideia do chamado “crowdsourcing”. A massa de espectadores fornece dados, com os quais o pessoal da segurança pode agir mais ampla e rapidamente em caso de catástrofe. Por outro lado, os espectadores podem receber instruções para se proteger, sem dificultar a fuga das outras pessoas. “Nós estudamos muitos casos de gerenciamento de crises, chegando à conclusão de que são sobretudo a coleção e a análise de dados que ainda não estão bem desenvolvidas”, diz a pesquisadora brasileira Karina Villela, do IESE, que coordena o projeto do lado europeu. Mas o pessoal da segurança pública precisa de informações seguras e tem que compreendê-las imediatamente, para poder realizá-las rapidamente. O ideal seria que os dados viessem das pessoas que estão diretamente afetadas pela catástrofe. Falando concretamente, poderia ser da seguinte maneira: um incêndio irrompe num estádio. Já antes do jogo, os espectadores teriam instalado um app nos seus smartphones, que eles agora podem ativar. Eles podem tirar fotos ou gravar vídeos, que são automaticamente enviados ao comando de operações. Além disso, o sistema coleciona os dados dos sensores integrados nos celulares. Onde está o usuário? Para onde e com que velocidade ele se move? Um “Heatmap“, um mapa colorido, mostra à central de operações como a massa se movimenta. Em 2013, quando o príncipe holandês Willem-Alexander foi coroado rei, um app do Centro Alemão de Inteligência em Pesquisa Artificial registrou os movimentos de 40 000 pessoas do público, as quais tinham previamente concordado com o armazenamento anônimo dos seus dados. O app também foi empregado na Maratona de Viena e no “Lord Mayor‘s Show” de Londres. Em caso de urgência, o pessoal de segurança teria podido organizar operações de salvamento com a ajuda dos dados. “Agora, nosso objetivo é combinar esses dados de movimento com dados de multimídia”, diz Paul Lukowicz, do DFKI. “Assim, os operadores podem associar as imagens concretas das zonas de perigo aos movimentos”. O importante é que não se extrapole a capacidade dos ajudantes com milhares de fotos e vídeos. Por isso, o software pode excluir imagens de pouca qualidade e com o mesmo conteúdo. Ao lado do levantamento e elaboração dos dados, a própria comunicação é também importante. “Em grandes eventos, a catástrofe causa frequentemente o colapso da comunicação”, diz Lukowicz. “Por isso, desenvolvemos também uma rede ad hoc. O app que disponibilizamos faz com que os smartphones construam uma espécie de rede de reserva”. Muitos smartphones podem ser usados como os chamados “access points”, podendo intercambiar dados com outros smartphones. Assim, em caso de emergência, as informações podem ser transmitidas de smartphone a smartphone, em vez de se usar a rede congestionada. O software é inteligente e faz com que os “access points” mudem constantemente, para que as baterias de cada usuário não se descarreguem muito depressa. A vantagem de tal rede é clara: a polícia e o corpo de bombeiros podem, por exemplo, dirigir uma parte das pessoas em pânico para o sul e outra para o norte. “Há uma grande diferença entre dirigir a massa ou gritar no meio dela”, diz o pesquisador Lukowicz. “Mas, com respeito ao nosso sistema, também existem desafios por parte do público, pois temos que saber como a multidão, em caso de uma catástrofe, pode disponibilizar informações da maneira mais fácil possível, sem que as pessoas tenham que entrar em perigo”, diz Karina Villela. Por outro lado, o grupo de pesquisadores não vê nenhum problema em motivar os espectadores a instalar os apps nos seus celulares. “Esperamos que futuramente, em grandes eventos, um software, como nós o fabricamos, já esteja integrado nas informações oficiais dos apps”, diz Villela. “Desta maneira, os usuários somente necessitariam consentir com qual tipo de aproveitamento de dados eles estariam de acordo”. Os apps ainda não estarão disponíveis na Copa do Mundo de futebol no Brasil, mas eles estarão em dois anos, nos Jogos Olímpicos. “Temos toda certeza de que nosso sistema estará então pronto para entrar em prática”, diz Villela. Todavia, ele talvez já possa ser empregado antes de 2016 no Rio, pois “Rescuer” não é apenas interessante para grandes eventos. Um dos parceiros do projeto é a sua subsidiária do grupo químico Dow no Brasil. Essa empresa pretende empregar esse sistema nos seus parques químicos, para coordenar melhor seus funcionários e o pessoal de segurança, em caso de emergência. Originally published here